terça-feira, 8 de janeiro de 2008

SURGE O BAIÃO


O novo samba-canção, porém, não foi a única novidade musical do Brasil do pós-guerra. Em outubro de 1946, a gravadora Odeon lançou um disco, do conjunto vocal Quatro Ases e Um Coringa, que apresentava, no lado B, uma música que iría revolucionar o mercado musical do país. Chamava-se Baião, de Luís Gonzaga e Humberto Teixeira, e a sua letra não escondia que se tratava de uma novidade:

Eu vou mostrar pra vocês
Como se dança o baião
E quem quiser aprender
É favor prestar atenção

Segundo o mestre Luís da Câmara Cascudo, em seu Dicionário do folclore brasileiro, o baião era uma dança muito popular do Nordeste no século XIX. Ele cita o estudioso Rodrigues de Carvalho, autor do livro Cancioneiro do Norte, lançado em 1928, e que, ao abordar os gêneros musicais da região, falou do baião, também conhecido como baiano: “comum entre a canalha e toma diversas modalidades coreográficas.” Luís da Câmara Cascudo lembrou que, desde 1946, “o grande sanfoneiro pernambucano Luís Gonzaga divulgou pelas estações de rádio do Rio de Janeiro o baião, modificando-o com a inconsciente influência local dos sambas e das congas cubanas. O baião, vitorioso em todo o Brasil, conserva células rítmicas e melódicas visíveis dos cocos, a rítmica (de percussão) com a unidade de compasso exclusivamente par”.
Baião teve várias gravações, mas somente em 1949 Luís Gonzaga gravou-a como cantor, colocando-a outra vez entre os discos mais vendidos do país. Nascia um gênero musical que iría empolgar não só o público brasileiro como o de vários outros países, pois o baião foi, de fato, um sucesso internacional. O gênero enriqueceu a música popular brasileira com muitas obras-primas, entre as quais Asa Branca, também da dupla Luís Gonzaga e Humberto Teixeira, dotada de uma melodia belíssima e de versos que podem figurar em qualquer antologia da poesia popular brasileira, como, por exemplo, “Quando o verde dos teus óio/Se espaiá na prantação”.
Os autores de Baião já perseguiam o sucesso há algum tempo, quando a música foi gravada pelo conjunto Quatro Ases e Um Coringa. Luís Gonzaga do Nascimento, pernambucano da cidade de Exu, estava com 34 anos de idade e atuava no Rio de Janeiro, desde 1939, quando iniciou a sua carreira tocando sanfona na rua e passando o chapéu para recolher o dinheiro dos transeuntes. Tocou também em bares da zona de meretrício do Mangue, passando depois para os cabarés da Lapa. Participou de programas radiofônicos de calouros, sem muito êxito, até que ganhou a nota máxima no programa de Ari Barroso tocando vira e mexe, música de sua autoria, cujo gênero identificava como chamego. Graças a essa apresentação, começou a atuar em programas radiofônicos, até ser convidado, em 1941, a gravar o seu primeiro disco na RCA Victor, ainda como sanfoneiro. Somente em 1943 conseguiu gravar como cantor. Nessa fase, lançou-se também como compositor, geralmente em parceria com Miguel Lima. O primeiro grande sucesso da dupla foi o calango Dezessete e setecentos, gravado por Manezinho Araújo, também pernambucano e extraordinário cantor de músicas nordestinas, especialmente de emboladas. Em fins de 1945, passou a compor com Humberto Teixeira (Baião foi a primeira obra da dupla). Pela contribuição prestada à consagração da música nordestina em todo o país, Luís Gonzaga pode ser considerado um dos pais da música popular brasileira, figurando numa galeria ao lado de nomes como os de Ernesto Nazaré, Pixinguinha, Noel Rosa, Ari Barroso, Dorival Caymmi e Antônio Carlos Jobim, entre outros.
Humberto Cavalcante Teixeira (1916-1979) era um cearense radicado no Rio de Janeiro desde a adolescência. No Rio, fez seus estudos e formou-se advogado. Considerado um dos maiores letristas da música popular brasileira, teve gravada, em 1944, a sua primeira composição: Sinfonia do café, um samba apoteótico, que fez com o maestro Lírio Panicalli e que foi interpretado pelo cantor Déo. Em 1950, foi eleito deputado federal pelo Ceará, quando apresentou uma lei obrigando o governo a financiar uma excursão de músicos e cantores brasileiros para o exterior. Conhecida como Lei Humberto Teixeira, ela permaneceu em vigor até 1964, quando foi revogada pelo regime militar que derrubou o presidente João Goulart.

IV FESTIVAL DA MÚSICA POPULAR DO CEARÁ


“Se você tiver uma idéia incrível é melhor fazer uma canção”, já dizia o poeta baiano. A música faz história porque participa desta. Assim, para tentar compreender a música popular cearense dos anos 60 e 70, é preciso entender a história de um movimento cultural e musical que se originou na cidade de Fortaleza, no final dos anos 50, envolvendo o rádio, o teatro, as artes plásticas, a política e os festivais, especialmente a relação entre a música e os músicos e suas experiências de vida. A confluência de movimentos culturais e espaços produtores, no início dos anos 60 – o conservatório, grupos como Cactus e Gruta, os Institutos de Física e de Arquitetura, a Faculdade de Direito, os bares Balão Vermelho, Estoril e Anísio-, foram de fundamental importância para a aproximação entre os jovens artistas e a produção musical.
Os festivais produzidos na segunda metade dos anos 60 – particularmente o IV Festival da Música Popular do Ceará promoverá uma redefinição da sonoridade na produção musical local, com a aproximação entre os antigos e novos artistas – foram decisivos para que os jovens artistas acreditassem nos seus próprios trabalhos, favorecidos também pelos programas de televisão “Porque Hoje é Sábado” e o “Show do Mercantil”, incentivando-os em suas apresentações e no contato com artistas consagrados. Só assim se poderá compreender como esses artistas – conhecidos como “Pessoal do Ceará” – moveram-se em busca do sucesso, vergando os entraves, alçando maior receptividade no mercado fonográfico local e nacional.

IV Festival da Música Popular do Ceará
1º de dezembro de 1968
Teatro José de Alencar, Fortaleza
Música Vencedora
Letra Música
Estilo
1º Nada Sou
Marcus Francisco e Raimundo Fagner
Samba
2º Diálogo do Amor Cantante
Marcus Vale e Isaíra Silvino
Marcha-rancho
3º Canção de Estar Sozinho
Antonio José da Silva e Antônio Silvino da Silva
Serenata
4º Canto Primeiro
Eusélio Oliveira e Lauro Benevides
Toada
5º Maria
César Rousseau de Oliveira
Samba

Raimundo Fagner, ainda menor de idade, sagra-se vencedor do festival - acontecimento que dará início à sua carreira musical. Sobre esse festival Fagner relatou:
Eu comecei em 1968 com Marcus Francisco, fizemos a primeira música, ela ganhou no IV Festival de Música Popular do Ceará. No Teatro José de Alencar, isso pra mim foi muito forte, foi o começo de tudo. (...) Não peguei o pessoal do Cactus, do Gruta eu já peguei em uma viagem. Após ganhar o festival, fui convidado pelo Cláudio Pereira, eu e o Marcus, para irmos à viagem que eles iam todos os anos, da “Capela Sistina”, fomos à Argentina, foi uma viagem maluquíssima, mas para mim foi fantástica...
Fagner ganhou o IV Festival com Nada Sou, canção que, aliás, nunca foi gravada por ele.

Eu não sou eu
Sou enxada no barro do chão
Sou sertão
Eu não sou fé
Sou pecado no corpo fechado
De Lampião.
Sou espada, sou granada, sou toada
Na voz do cansado cantador
No grito do chato agitador
É pensando na morte o que eu peço:
Eu quero de volta o meu ingresso
E o chefe envolvido num processo
No apito da fábrica apitando
Na canção que os meninos vão cantando
Sem saber que cantando vão chorando
Estefânia parou de cantar
Ouço o eco do choro no mar...
No ronco dos carros na sexta
Cabeças de vento em festa
Alguém me pedindo em festa
Alguém me pedindo perdão
Por falar e mandar sem razão
Não aceito motivo, não dou...
Eu não sou eu
Sou panfleto voando e rolando do avião
Eu não sou fé
Sou pecado de amor se expressando na
canção
Sou espada.
Sou granada.
Sou toada.
Eu não sou eu:
Sou um Deus a pedir holocausto de outro
Deus (bis)
Deus a Deus!
Deus a Deus!
Deus a Deus!

Iniciar uma trajetória artística no meio de toda aquela efervescência, logo com sua primeira composição ganhando festival, seria grande estimulo para qualquer um. E os parceiros do Colégio da Piedade, Fagner e Marcus Francisco, não perderam tempo e compuseram outra canção, Luzia do Algodão, inscrevendo-a imediatamente no festival que teria início em seguida, na primeira semana de dezembro de 1968, o I Festival de Música Popular Aqui.
Diante do convite de Pereira para viajar, Fagner exigiu que seu parceiro Marcus Francisco também fosse. Contudo, por ser Fagner menor de idade, Cláudio Pereira foi pessoalmente à sua casa pedir autorização de seu pai, que foi concedida. Essas viagens chegavam a durar cerca de 45 dias em ônibus semi-leito, públicos ou alugados, desprovidos de toilettes. Especialmente na memória de Fagner, o percurso da viagem passou por Salvador, pelo carnaval do Rio de Janeiro, pela festa da Uva em Caxias do Sul, pelo Uruguai e Argentina. Enquanto Cláudio Pereira, em suas reminiscências, revelou que ele alugava o ônibus público, sendo o preço dividido pela maioria e alguns convidados não pagavam, como Fagner e Fausto Nilo. Revelou ainda que, em seu percurso, passaram por Brasília e as cidades históricas de Minas Gerais.
Dessa tríade, universidade, lares e bares, não necessariamente nessa ordem, nasceu o engajamento político da classe média de estudantes cearenses, também nas viagens do Gruta. Além desses espaços, outros representaram a exposição pública e iniciação desses jovens artistas – os programas “Porque Hoje é Sábado”, “Gente Que a Gente Gosta” e “Show do Mercantil”-, levando-os a conhecer nomes consagrados e também o desejo de encarar a condição social de artista, deixando Fortaleza para o eixo Rio de Janeiro – São Paulo (tocando no bandejão da USP, em seguida no programa “Proposta”, de Júlio Lerner), usando os festivais como vitrine na busca do tão esperado sucesso. Particularmente o Festival do Ceub, que teve Fagner como grande vencedor, e o IV Festival Universitário da Música Popular Brasileira, vencido por Belchior, em 1971, foram importantes, abrindo assim maior espaço para que outros compositores, intérpretes e instrumentistas do estado pudessem sobreviver de seus trabalhos.

Colaboração do Prof. Wagner Castro.

TROPICÁLIA: "EU ORGANIZO O MOVIMENTO, EU ORIENTO O CARNAVAL..."


A Tropicália, ou Tropicalismo, foi um dos mais interessantes desdobramentos da contracultura no Brasil, ocorrendo em paralelo à Bossa Nova e aos trabalhos de Chico Buarque e de Geraldo Vandré. A tropicália discutiu a criação artística num sistema industrial. Centrou-se na vida urbana; extraiu elementos do folclore, incorporou elementos musicais considerados kitsch, como Vicente Celestino, por exemplo; criticou a sociedade de consumo; parodiou clichês, slogans publicitários e estilos; fez colagens verbais, denunciando certa herança oswaldiana e da Geração de 22, como a simultaneidade, a velocidade, a sobreposição de imagens.
Estávamos na “geléia geral brasileira”, como cantava Gilberto Gil. Foram os maestros Rogério Duprat, Júlio Medaglia, Hohagen e Cozzela que orquestraram as canções dos tropicalistas nos festivais e, conhecedores das novas linguagens eletrônicas, inseriram essas músicas em seus próprios arranjos, rompendo as fronteiras entre o popular e o erudito.
Os tropicalistas entraram em contato com o Cinema Novo de Glauber Rocha e com o teatro de José Celso Martinez Corrêa, quando da encenação da peça O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, no Teatro Oficina; conheceram Augusto de Campos e o Concretismo, a poesia e os manifestos de Oswald de Andrade, notadamente o da Antropofagia, que propunha “a devoração crítica da cultura estrangeira”; permitiram a criação, entre nós, de uma arte original, “de exportação”.
Introduziram roupas coloridas, de inequívoco gosto hippie, mas com cores tropicais. O visual excêntrico, os cabelos compridos, eriçados ou escorridos, deram-lhes a fama temporária de “alienados”. Dentre eles, destaca-se Caetano Veloso. Augusto de Campos, no artigo “Qualquer Jóia”, declara:
Depois da grande fase da poesia para ser vista, enfaticamente vista...- a dos anos 50 e 60 – houve um giro, uma mudança de veículo, privilegiando a audição. A poesia para ser ouvida, dos fins dos anos 60. Feita por poetas para serem vistos. Quase todos, pré-, para- ou ex-universitários. O fato é que, a partir desse momento, toda uma geração de poetas das camadas cultas urbanas partiu, decididamente, para o som.[...]
Puxada por Caetano, a poesia-música rompeu as barreiras entre popular e erudito. E se expôs, radicalmente, com todos os riscos, às largas e despreparadas platéias do consumo, levando a um extremo limite a tensão comunicativa entre informação nova e o repertório coletivo de redundâncias. Vivas e vaias. [...] uma arte com parâmetros próprios – ainda que porosa às demais – de uma poesia-ação, que não se faz apenas com palavras, mas com sons, voz, corpo. Poesia mais próxima da conversa que do verso.
Caetano Veloso saiu de Santo Amaro da Purificação, pequeno município baiano onde nasceu, e ainda menino foi para Salvador. Quando a família retornou à terra natal, permaneceu com a irmã mais nova, Maria Bethânia, na capital, um lugar de grande efervescência cultural.
Enquanto cursava a faculdade de Filosofia, Caetano tomou contato com a boêmia intelectual. Por essa época, já conhecia o trabalho de João Gilberto, o Cinema Novo de Glauber, que o fascinava, Gal Costa, Gilberto Gil e o diretor de teatro Álvaro Guimarães, que lhe pediu composições para algumas peças.
Em 1964, Caetano inaugurou o Teatro Vila Velha, em Salvador, com o show “Nós, por Exemplo”, com Gil, Gal, Bethânia, Tom Zé e Carlos Coquejo – o espetáculo mesclava música, leitura de textos e debates. No ano seguinte, partiu com a irmã, para o Rio de Janeiro, onde Bethânia foi convidada a substituir Nara Leão num espetáculo do grupo Opinião – o sucesso estrondoso consagrou a cantora de voz incomum, especialmente por sua interpretação de “Carcará”, do compositor maranhense João do Vale (1934-1996).
Em 1966, Caetano foi premiado no Segundo Festival da Record, com a letra “Um dia” – em 1967, foi a vez de “Alegria, Alegria” (classificada em 4º lugar) e de “Domingo no Parque” (2º lugar), apresentada por Gilberto Gil. Por essa época, o Tropicalismo, Chico Buarque e a música de protesto se encontravam.
Sobre a canção “Alegria, Alegria”, declara Augusto de Campos:
Furando a maré redundante de violas e marias, a letra de Alegria, Alegria traz o imprevisto da realidade urbana, múltipla, fragmentária, captada, isomorficamente, através de uma linguagem nova, onde predominam substantivos-estilhaços da implosão informativa moderna.
Em 1968, Caetano se indispôs com o público durante um show no Teatro da Universidade Católica de São Paulo, o Tuca – passou a gritar o slogan “É proibido proibir!” e num discurso acusou a platéia de “sempre matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem”. Nesse mesmo ano, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Antônio Callado foram presos: ficaram detidos quatro meses no Rio de Janeiro e dois em Salvador. Depois disso, Caetano gravou a fita de um novo disco, com Gil ao Violão, e mandou-a para o maestro Rogério Duprat, em São Paulo, que criou os arranjos. Em 1969, Caetano fez um espetáculo de despedida no Teatro Castro Alves, em Salvador, levando o público ao delírio, e partiu com Gil para um exílio em Londres. De volta ao Brasil, fez shows com Gal e João Gilberto e, mais tarde, com Chico Buarque, rompendo qualquer ranço de rivalidade que pudesse haver entre os trabalhos de ambos.
Em 1976, aconteceu a apresentação de Doces Bárbaros, reunindo os principais nomes do movimento: Gil, Caetano, Gal e Bethânia. Nessa época, cada um deles já havia tomado um rumo próprio – fecundíssimo até nossos dias. Gil veio a ser nomeado ministro da Cultura em 2003, cargo que ainda exerce, durante o segundo mandato de presidente Lula.

AMPLA, GERAL E IRRESTRITA


Em agosto de 79, foi aprovada a Lei da Anistia. O governo lançou mão de uma estratégia que se aproveitava da linguagem jurídica para anistiar os acusados de “crimes políticos e conexos”. Com o termo “conexos”, a mesma lei contemplou centenas de opositores ao regime, presos e exilados, como também milhares de criminosos por abusos de poder, torturadores e assassinos.
O lento processo de redemocratização – de Geisel a Figueiredo – também teve sua trilha sonora. Desde o início da década de 70, destacou-se nos últimos festivais da Globo uma nova geração de compositores universitários. Dentre eles, Ivan Lins, João Bosco, Aldir Blanc e Luís Gonzaga Júnior, o Gonzaguinha, filho de Luís Gonzaga, “o rei do baião”.
A Globo apostou no talento dessa nova geração e produziu um programa, Som Livre Exportação, aproveitando-os. Gonzaguinha, que depois comporia também eternas canções de amor, não economizava preocupação política em suas letras:
Comportamento Geral (1973)
(Gonzaguinha)
Intérprete: Gonzaguinha

...Você deve aprender a baixar a cabeça
E dizer sempre muito obrigado
São palavras que ainda te deixam dizer
Por ser homem bem disciplinado
Deve, pois, só fazer pelo bem da nação
Tudo aquilo que for ordenado
Pra ganhar um fuscão no juízo final
E diploma de bem-comportado
Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba e amanhã, seu Zé,
Se acabarem teu carnaval?
Também ilustrativo da oposição ao regime militar neste período (Não traz lema nem divisa) é o samba Plataforma, de João Bosco e Aldir Blanc, gravado em 1977 no disco Tiro de misericórdia:

Não põe corda no meu bloco nem vem com
teu carro chefe
Não dá ordem ao pessoal
Não traz lema nem divisa que a gente não
precisa
Que organizem nosso carnaval
Não sou candidato a nada, meu negócio é
madrugada
Mas meu coração não se conforma
O meu peito é do contra e por isso mete
bronca
Nesse samba plataforma

Por um bloco que derrube esse coreto
Por passistas à vontade, que não dancem o
minueto
Por um bloco sem bandeira ou fingimento
Que balance e abagunce o desfile e o
julgamento
Por um bloco que aumente o movimento
Que sacuda e arrebente o cordão de
isolamento
Não põe no meu
Com a extinção do AI-5 em 79, o ambiente musical começou a relaxar. A cantora baiana Simone, em disco gravado ao vivo no Canecão, Rio de Janeiro, interpretou várias canções de teor político, inclusive Pra não dizer que não falei das flores, o Caminhando, de Vandré. Outro destaque que refletia otimismo era Desesperar jamais, de Ivan Lins e seu parceiro Vítor Martins:

Desesperar jamais
Aprendemos muito nesses anos
Afinal de contas não tem cabimento
Entregar o jogo no primeiro tempo...

...No balanço de perdas e danos
Já tivemos muitos desenganos
Já tivemos muito que chorar

Mas agora acho que chegou a hora
De fazer valer o dito popular:
Desesperar jamais
Cutucou por baixo, o de cima cai
Desesperar jamais
Cutucou com jeito, não levanta mais

Em comemoração à aprovação da Lei da Anistia, Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro compuseram Tô Voltando, gravada também por Simone no mesmo disco:

Pode ir armando o coreto
E preparando aquele feijão preto
Eu tô voltando
Põe meia dúzia de Brahma pra gelar
Muda a roupa de cama
Eu tô voltando
Leva o chinelo pra sala de jantar
Que é lá mesmo que a mala eu vou largar
Quero te abraçar
Pode se preparar porque eu tô voltando...

ESTE É UM PAÍS QUE VAI PRA FRENTE...


Médici (1969-1974) regeu o governo mais repressivo da história da República brasileira. Os DOI-CODIs (Destacamentos de Operações de Informações – Centros de Operações de Defesa Interna), criados em 1969, centralizaram as práticas de tortura.
Os órgãos de imprensa eram todos censurados, impedidos de mostrar o que acontecia nos porões da ditadura. Ao contrário disso, promoviam campanhas ufanistas para enaltecer o “milagre brasileiro”.
Com apoio de maciço capital estrangeiro, o crescimento econômico acelerado colocou o Brasil entre as maiores economias do mundo sem, contudo, distribuir a renda. A acentuação na concentração de renda foi a estratégia para um capitalismo brasileiro de rápido desenvolvimento adotada pelo ministro da Fazenda, Delfim Neto: “Fazer o bolo crescer para depois dividir”.
A forte propaganda do “milagre” valeu-se de slogans como “Brasil, ame-o ou deixe-o”. “Ninguém segura este país” ou “Este é um país que vai pra frente”. Muito contribuiu para justificar o clima de euforia a conquista do tricampeonato na Copa do Mundo do México, em 1970.

Pra Frente Brasil
(Miguel Gustavo)

Noventa milhões em ação
Pra frente Brasil do meu coração
Todos juntos vamos
Pra frente Brasil
Salve a seleção

De repente é aquela corrente pra frente...

Eu te amo, meu Brasil (1970)
(Dom)
Intérpretes: Os incríveis

Eu te amo, meu Brasil, eu te amo
Meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil
Eu te amo, meu Brasil, eu te amo
Ninguém segura a juventude do Brasil...

O Drible

O futebol, que junto com a música é o maior produto brasileiro de exportação, teve estreita ligação com o governo Médici. Na preparação à Copa de 70, o time foi treinado pelo jornalista João Saldanha, substituído na Copa por Zagalo, que, como jogador, participara da conquista das copas de 58 e 62. Quando Zagalo assumiu, convocou alguns jogadores que não estavam na lista de Saldanha, entre eles o folclórico Dario. Saldanha, por sua vez, de volta ao jornalismo, alegou que fora demitido porque Médici, fã declarado de Dario, teria imposto sua escalação. Há inclusive uma lendária frase atribuída a Saldanha: “O presidente escala o ministério dele; quem escala a seleção sou eu”, em resposta a um capitão do exército que supervisionava a seleção para a Copa de 70.
O time da Copa do México era maravilhoso e encantou o mundo. Pelé, no auge de sua forma, aos 29 anos, foi aclamado não só como melhor jogador do mundo em todos os tempos, mas também como o atleta do século – títulos que ostentou até o final do século. Encerrou precocemente a carreira em 1973 – depois a retornaria em 76, jogando nos Estados Unidos, para lá tentar difundir o futebol – e recusou-se terminantemente a participar da Copa de 74 na Alemanha, perdida pelo Brasil. Foi muito criticado por isso na época. Em 99, em entrevista a um programa da TV Bandeirantes, viria a justificar sua atitude alegando que não queria servir para propaganda da ditadura.
Os dribles desconcertantes, a ginga do futebol brasileiro, que Gilberto Freyre compara à capoeira, podem também ser comparados à solução que a música brasileira encontrou para tentar fugir à forte censura. Sem dúvida, uma das maiores vítimas e um dos maiores “dribladores” da censura foi Chico Buarque, como ele mesmo define em sua canção O futebol, de 89: Para tirar efeito igual/Ao jogador/Qual compositor/Para aplicar uma firula exata.
Antes mesmo de Caetano e Gil se exilarem em Londres, em janeiro de 69, Chico e sua mulher, a atriz Marieta Severo, grávida de sete meses, rumaram à Europa para uma temporada de dez dias, quando Chico faria um show em Cannes, na França. Foi aconselhado por amigos e pela família a não regressar ao Brasil.
Chico tinha motivos para se decidir pelo auto-exílio. Edu Lobo já havia deixado o Brasil para estudar orquestração em Los Angeles, Vandré fugira para o Chile e depois para a França – só conseguiu voltar em 73, depois de renegar sua música e declarar apoio ao regime militar. O próprio Chico, logo após o AI-5, foi levado para o I Exército e lá foi interrogado por um general de nome Assunção e pelo Coronel Àtila. Não foi preso provavelmente por ter sido considerado simpático pelo general e por ser torcedor do Fluminense. Além disso, ele era o compositor de Sabiá, antagonista de Pra não dizer que não falei das flores.
“O general me perguntava sobre Roda Viva e eu dizia: “Mas é uma sátira, não tem nada a ver com o governo, é uma crítica ao show business’ . Aí o general insistia: ´Se não tem nada, por que uma hora o sujeito senta e defeca no capacete?´. E eu comigo pensava, puxa o Zé Celso exagerou. Mas também não podia dizer que não era coisa minha.” Mas tarde Chico veio a saber que a tal cena era de outra peça encenada também no Teagro Ruth Escobar, Feira paulista de opinião, de Augusto Boal (Grupo Arena).
“Eles perguntaram umas coisas horrorosas. Diziam: ´O que é que você estava fazendo na passeata de braços dados com aquele crioulo sujo do Gilberto Gil?´Quando saí de lá, mandei pelo Paulinho da Viola, que jogava futebol comigo no campo do Madureira, um recado para o Gil. Até hoje não sei se ele recebeu.” Só na Europa Chico soube da prisão de Caetano e Gil, o que também contribuiu para que a viagem de dez dias durasse catorze meses. O casal morou na Itália, onde a filha nasceu.
Durante o exílio, Chico gravou um disco – Chico Buarque n.º 4 – produzido entre Itália e Brasil. Registrou as canções em gravação caseira. O produtor Manoel Barembeim levou a fita a São Paulo para que César Camargo Mariano fizesse e gravasse o arranjo de orquestração, e Chico pôs a voz em um estúdio em Roma. A canção Agora Falando sério explica o exílio e o oficializa o rompimento de Chico com a imagem de bom moço, conquistada nos tempos de A banda, canção que chegou a ser associada à ditadura, pois foi tema tema de um comercial para alistamento militar.

Agora falando sério
Eu queria não cantar
A cantiga bonita
Que se acredita
Que o mal espanta
Dou um chute no lirismo
Um pega no cachorro
E um tiro no sabiá
Dou um fora no violino
Faço a mala e corro
Pra não ver banda passar...

GLOBALIZAÇÃO E INFORMÁTICA


A globalização é o tema que toma conta do debate no final do século XX e começo do XXI. A Interligação instantânea e a integração comercial e cultural dos mais longínquos rincões do planeta geram inclusão por um lado e a exclusão de milhões de seres humanos em países pobres, por outro. Em termos nacionais, a grande questão que se coloca ao Brasil é que tipo de inserção nos mercados globais o aguarda: uma inserção soberana e justa ou uma inserção subserviente e colonizada?
A canção Parabolicamará, de Gilberto Gil, reflete o grande tema deste final de século, a globalização. Na verdade a integração comercial e cultural entre os diversos pontos do planeta teve seu início entre os séculos XV e XVI, com as chamadas Grandes Navegações portuguesas que, entre outras descobertas, inclui a do Brasil. Com a queda da orientação soviética no Leste Europeu e o fim da própria URSS em 91, essa integração se ampliou. O inglês passou a ser a língua-padrão para negócios no mundo todo.

Parabolicamará
(Gilberto Gil)

Antes mundo era pequeno
Porque Terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena parabolicamará
Ê, volta do mundo, câmara
Ê-ê, mundo dá volta, câmara
Antes longe era distante
Perto, só quando dava
Quando muito, ali defronte
E o horizonte acabava
Hoje lá trás dos montes, den de casa, camará
Ê, volta do mundo, camará
Ê-ê, mundo dá volta, camará
De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação
Pela onda luminosa
Leva o tempo de um raio
Tempo que levava Rosa
Pra aprumar o balaio
Quando sentia que o balaio ia escorregar
Ê, volta do mundo, câmara
Ê-ê, mundo dá volta, câmara
Esse tempo nunca passa
Não é de ontem nem de hoje
Mora no som da cabaça
Nem tá preso nem foge
No instante que tange o berimbau, meu camará
Ê, volta do mundo, camará
Ê-ê, mundo dá volta, camará
De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação
De avião, o tempo de uma saudade
Esse tempo não tem rédea
Vem nas asas do vento
O momento da tragédia
Chico, Ferreira e Bento
Só souberam na hora do destino apresentar
Ê, volta do mundo, camará
Ê-ê, mundo dá volta, camará

No final dos anos 80, foi formado o grupo paulista Mamonas Assassinas. Seu primeiro e único LP-CD foi gravado em 1995 e conquistou um sucesso meteórico. Parodiando os diversos estilos musicais – pagode, sertanejo, heavy metal, brega, pop rock – fizeram uma aparição competente, bem-humorada e muito rápida. Todos os integrantes do grupo morreram em um acidente de avião na madrugada de 2 de março de 1996.
O único disco da banda, enorme sucesso entre as crianças, pode ser entendido como um manifesto antiglobalização.
Num gesto antropofágico, semelhante ao do cantor cearense Falcão e sua I am not dog não, as letras das canções dos Mamonas devoram o idioma da globalização e da Internet e o submetem às regras gramaticais da língua portuguesa. O inglês, nos Mamonas e em Falcão, é apenas um instrumento ampliador do vocabulário e das formas de expressão, numa nítida intenção de ridicularizá-lo:

1406
(Dinho e Júlio Rasec)

Money que é good nóis num have
Se nóis havasse nóis num tava aqui
Playando
Mas nóis precisa de wodká
Money que é good nóis num have
Se nóis havesse nóis num tava aqui
Workando
O nosso work é playá.

Além do idioma, os Mamonas Assassinas cantam o excluído do consumo universal determinado pela globalização: tudo que ela olha a desgraçada quer:/televisão, microondas, micro system, microscópio, /limpa vidro, limpa-chifre/facas Ginsu. Mesmo indo ao chopis centis, comendo pão com gergelim ou usando um tênis Reebok ou uma calça Fiorucci, não é possível conquistar a mulher very beautiful. Ela certamente estará em um nível superior ao do carro velho que o excluído pode ter: O alemão de carro conversível/Eu mexendo nos fuzível, nem vi quando/Você me deixou/Só porque é lindo, loiro e forte/Tem dinheiro e um Escort,/Como Modess, você me trocou.
O processo de informatização ganhou novo fôlego com a popularização da Internet. A rede mundial de computadores criou um novo tipo de trabalhador no final do século. O trabalho sem sair de casa. Diante da tela de um microcomputador pessoal, é possível fazer compras, obter informações e comunicar-se com o mundo todo, “navegando” na rede.
Deixemos que a música nos forneça maiores detalhes sobre a linguagem e os recursos desse novo meio.
Também de Gilberto Gil é a canção Pela Internet, de 97, uma referência ao samba Pelo telefone, gravado oitenta anos antes:

Criar meu web site
Fazer minha home page
Com quantos gigabytes
Se faz uma jangada
Um barco que veleje

Que veleje nesse informar
Que aproveite a vazante da informaré
Que leve um oriki do meu orixá
Ao porto de um disquete de um micro em Taipe

Um barco que veleje nesse informar
Que aproveite a vazante da informaré
Que leve meu e-mail até Calcutá
Depois um hot-link
Num site de Helsinque
Para abastecer

Eu quero andar na rede
Promover um debate
Juntar via Internet
Um grupo de tietes de Connecticut

De Connecticut acessar
O chefe da Macmilícia de Milão
Um hacker mafioso acaba de soltar
Um vírus pra atacar programas do Japão

Eu quero entrar na rede pra contactar
Os lares do Nepal, os bares do Gabão
Que o chefe da polícia carioca avisa pelo celular
Que lá na Praça Onze tem um videopôquer para se jogar.

O MAL DO SÉCULO


Assim como o Bacilo de Koch (bactéria causadora da tuberculose), até a primeira metade do século, que nos privou de Noel Rosa, por exemplo, o vírus HIV causou e causa danos irreparáveis à nossa arte musical.
Em 1988, Cazuza (Agenor de Miranda Araújo Neto), o ex-integrante do grupo Barão Vermelho, compôs e gravou o álbum Ideologia e nele anunciou na música-título:

...O meu prazer agora é risco de vida
Meu sex and drugs não tem nenhum rock´n´roll..

No mesmo ano, Cazuza gravou, ao vivo no Canecão (RJ), no disco O tempo não pára, a sua música Boas novas:

...senhoras e senhores
trago boas novas
eu vi a cara da morte e ela estava viva...

Apesar de todas as “bandeiras”, só em 1989 ele assumiu publicamente que era uma vítima da AIDS. Em 1990, Cazuza, um dos maiores poetas de sua geração, morreu.
Por uma triste coincidência, outro grande poeta da mesma geração morreu vitimado pelo mesmo mal. Renato Russo (Renato Manfredini Júnior), ex-integrante do grupo punk de Brasília (Aborto Elétrico), que depois se transformou num dos maiores nomes da música dos anos 80 à frente da Legião Urbana.
Renato morreu em 1996. Dentre as suas várias letras, algumas falaram de seu drama pessoal.

Há tempos
(Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá)

...Há tempos são os jovens que adoecem
Há tempos o encanto está ausente...

Pais e Filhos
(Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá)

...É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar para pensar, na verdade não há...

Quando o sol bater na janela do seu quarto
(Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá)

...Tudo é dor e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor...

As três composições citadas são do álbum As quatros estações.
Em 1998, em um disco da série Acústico MTV, Rita Lee gravou a música O gosto azedo, de seu filho Beto Lee, que talvez seja a melhor composição sobre o mal que pôs abaixo a liberdade sexual, conquistada nos anos 60, e que entra no novo milênio sem cura.




Para o sangue sou o veneno
Eu mato, eu como, eu dreno...
Uma nova ditadura
Terminal da loucura
Sou o vírus sem cura
Sou o HIV que você não vê...


A QUESTÃO FUNDIÁRIA

O problema da grande concentração de terras coincide no Brasil com a questão da concentração de renda. As tímidas iniciativas dos últimos governantes para promoção da reforma agrária não foram suficientes para conter conflitos no campo entre latifundiários e agricultores sem-terra. O MST (Movimento dos trabalhadores rurais sem-terra), criado em 1985, tem organizado as ações no campo, como ocupação de terras improdutivas e pressionado politicamente o governo para assentamentos de famílias e financiamentos da produção da agricultura familiar.
Dentre episódios violentos merecem destaques o choque entre os sem-terra e a polícia militar em Eldorado dos Carajás, PA, em 1996, com vários mortos e feridos.
Em 1997, foi lançado o livro “Terra”, com fotos de Sebastião Salgado, textos do premiado escritor português José Saramago e um CD com músicas de Chico Buarque. A renda foi revertida para o MST.
Assentamento
(Chico Buarque)

“Quando eu morrer, que me enterrem na
beira do chapadão
contente com minha terra
cansado de tanta guerra
crescido do coração”
(apud Guimarães Rosa)...
...Quando eu morrer
Cansado de guerra
Morro de bem
Com minha terra:
Cana, caqui
Inhame abóbora
Onde só vento se semeava outrora
Amplidão, nação, sertão sem fim
Ó Manuel, Miguilin
Vamos embora.

O "PRESIDENTE BOSSA-NOVA"


A música de “fossa” estava vivendo seu auge no início dos anos 50. Em 1952, o “rei da voz”, Francisco Alves (Chico Viola), morreria em um acidente de automóvel; em 1954, Getúlio se suicidaria, em 1955 Carmem Miranda faleceria em Los Angeles. O Brasil estava triste. Contribui para essa tristeza a perda da Copa do Mundo de futebol. Depois de uma campanha arrasadora, a seleção brasileira só precisaria empatar na última partida contra o Uruguai, para se sagrar campeã. Depois de estar vencendo por 1 x 0, permitiu que o time da camisa azul-celeste virasse o placar em 2 x 1, na inauguração do Maracanã, no Rio de Janeiro. Foi um dos maiores traumas da história da cultura popular brasileira. A auto-estima estava baixíssima, a ponto de o jornalista, escritor e dramaturgo Nélson Rodrigues ter proposto a teoria segundo a qual éramos, perante o resto do mundo, acometidos de uma síndrome de vira-latas.
A música de “dor-de-cotovelo” era a versão brasileira do blues norte-americano e viria a revelar importantes cantoras, como Sílvia Telles, Maysa e Dolores Duran – as duas últimas também compositoras.
O grande sucesso de 1952 foi Ninguém me ama, de Antônio Maria e Fernando Lobo:
Ninguém me ama
Ninguém me quer
Ninguém me chama
De meu amor
A intérprete era a estreante Nora Ney, egressa do fã-clube de Dick Farney. Os fãs-clubes de Farney e Lúcio Alves eram reduto para jovens que rejeitavam samba, carnaval e queriam consumir música norte-americana, sobretudo o jazz. Em meio à tristeza com o tiro e a carta de Vargas e com as letras desesperadas das músicas de “dor-de-cotovelo”, estava sendo semeado o decreto de chega de baixo-astral!
Nos encontros nos fãs-clubes, além de consumir música, faziam música. Chamavam a atenção as inovações harmônicas de Johnny Alf ao piano e de João Donato ao acordeão, que podem ser entendidas como pré-bossa.
Em novembro de 1954, o governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek, lançou sua candidatura pelo PSD. Em abril de 55, João Goulart foi lançado como vice, na mesma chapa, pelo PTB. Ambos tinham origem getulista – aliás, foi no enterro de Getúlio que Osvaldo Aranha e Tancredo Neves articularam tal aliança – e isso assustou a UDN, que teve como candidato o general Juarez Távora. Ademar de Barros – que pelo acordo de 1950 seria o candidato de Vargas em 1955 – saiu sozinho, pelo PSP. Os integralistas lançaram Plínio Salgado.
As eleições se realizaram em 3 de outubro de 1955, apesar das tentativas da UDN de desmoralizar a chapa PSD-PTB (o jornal de Carlos Lacerda, por exemplo, publicou a chamada Carta Brandi, que tentava envolver Jango em um contrabando de armas da Argentina). Pelo suposto plano, as armas seriam usada na instalação de uma “República Sindicalista” no Brasil. Depois de uma investigação ficou provada a falsidade da carta – a dobradinha Juscelino e Jango foi a vencedora.
Diante do resultado das urnas, Lacerda passou a, mais uma vez, clamar por um golpe: “Não podem tomar posse, não devem tomar nem tomarão posse”.
O plano de golpe, que pretendia colocar no poder alguém de oposição a Juscelino e Jango, esbarrava em um problema: general Teixeira Lott. Antes de mais nada, era preciso destituí-lo do cargo de Ministro da Guerra.
No dia 5 de novembro de 1955, alegando problemas de saúde, o presidente Café Filho saiu de licença e foi substituído por Carlos Luz, Presidente da Câmara dos Deputados. Isso se deu quatro dias depois de o coronel da ESG, Bizarria Mamede, ter proferido um discurso que feria o Código Militar. Mamede disse que a vitória JK e Jango foi uma “mentira democrática”.
Diante da insubordinação de Mamede, Lott solicitou primeiro ao chefe do Estado-Maior das forças Armadas e depois ao Presidente em exercício que punisse o coronel. Seu pedido foi recusado por duas vezes. Lott pediu demissão.
Porém, no dia 10 de novembro, Lott foi procurado pelos principais comandantes militares do Rio de Janeiro, que lhe mostraram a armadilha em que caíra. Na madrugada do dia 11, o general botou as tropas na rua, ocupou o Rio de Janeiro e destituiu Carlos Luz.
Com o apoio de quase totalidade do exército, o Presidente do Senado, Nereu Ramos, assumiu sob estado de sítio. Em 31 de janeiro de 1956, JK e Jango foram empossados.
A canção abaixo é uma composição do menestrel Juca Chaves. Humorista e crítico político, Juca simpaticamente critica Juscelino, retratando-o como o Presidente Bossa Nova. Apesar de toda a democracia, a canção foi proibida pela censura e só gravada em 1961:
Presidente bossa-nova

Bossa nova mesmo é ser Presidente
Dessa terra descoberta por Cabral
Para tanto basta ser tão simplesmente
Simpático, risonho, original

Depois desfrutar da maravilha
De ser o Presidente do Brasil
Voar da velhacap pra Brasília
Ver Alvorada e voar de volta ao Rio

Voar, voar, voar
Voar, voar pra bem distante
Até Versalles, onde duas mineirinhas
Valsinhas dançam como debutante, interessante
Mandar parente a jato pro dentista
Almoçar com tenista campeã
Também poder ser bom artista, exclusivista
Tomando com Dilermando umas aulinhas de violão

Isso é viver como se aprova
É ser um Presidente bossa-nova.

BOTA O RETRATO DO VELHO OUTRA VEZ... NO MESMO LUGAR...


Em 1950, teve início a campanha pela sucessão de Dutra. O candidato do Presidente, pelo PSD, foi o inexpressivo Cristiano Machado. A UDN lançou, novamente, Eduardo Gomes. O homem da coligação PTB-PSP (Partido Social Progressista) foi Getúlio Vargas. O PSP era o partido do governador de São Paulo, Ademar de Barros, que indicou como vice, na chapa de Getúlio, João Café Filho. Também foi feito um acordo: Getúlio em 1950, Ademar em 1955, um em apoio ao outro.
Em 31 de janeiro, Getúlio Vargas voltou ao poder – obteve nas eleições 48,7% dos votos. Mas, desde sua candidatura, não faltou quem lhe fizesse oposição. O jornalista Carlos Lacerda, dono do jornal carioca Tribuna da Imprensa e líder da UDN, foi o seu maior inimigo político nessa fase: “O Sr. Getúlio Vargas... não deve ser candidato à Presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”.
Em 1951, a marchinha de Haroldo Lobo e Marino Pinto, Retrato do velho, gravada por Chico Alves, comemorou a volta do “pai dos pobres”:

...Bota o retrato do velho outra vez
Bota no mesmo lugar...
O sorriso do velhinho
Faz a gente trabalhar...

O governo de Getúlio se inicia de modo contraditório. Apesar de seu discurso nacionalista – que defendia o aprofundamento das conquistas dos trabalhadores, as restrições ao capital estrangeiro, a intervenção do Estado na economia -, seu ministério foi composto, majoritariamente, por elementos que defendiam a total liberdade de ação do capital internacional, a eliminação de algumas conquistas trabalhistas, a não-intervenção do Estado nos assuntos econômicos. Essa situação se justifica pelo fato de Vargas ter dividas eleitorais com grupos que defendiam o liberalismo econômico.
O Presidente retomou o discurso industrialista, porém faltava no país capital para a indústria de base e obras de infra-estrutura. Dessa forma, Getúlio endossou as conclusões da Missão Abbink e assinou um acordo com o governo dos EUA – o Brasil receberia um empréstimo de 400 milhões de dólares. A pretensão de Getúlio era que houvesse uma participação ponderada de capital estrangeiro na economia nacional.
Entre 1952 e 1953, Vargas apoiou o slogan “O PETRÓLEO É NOSSO”, que na verdade já havia no país desde o final do governo Dutra, em 1949. Em 1953, depois de uma intensa campanha – que colocava, de um lado, os chamados “entreguistas”, apoiados pelas multinacionais do petróleo e pelo governo dos EUA; do outro, a presidência, os sindicatos, a UNE (União Nacional dos Estudantes) e grande parte da opinião pública -, Vargas criou a Petrobras. Estabeleceu-se o monopólio da exportação e refino do produto, mas se permitiu que a distribuição continuasse nas mãos de empresas estrangeiras.
Contra Vargas aconteceram várias pressões diplomáticas e econômicas. Em junho de 1953, os EUA romperam o acordo de empréstimo – dos 400 milhões de dólares, vieram apenas 180.
Além da criação da Petrobras, outras medidas desagradaram os EUA e a maioria do ministério de Vargas. O Presidente criou uma lei que restringia a remessa de lucros para o exterior e outra que controlava a entrada do capital estrangeiro.
A campanha contra o nacionalismo de Vargas e uma suposta infiltração comunista contou com a adesão dos militares não-nacionalistas, da UDN, da grande imprensa (comandada por Carlos Lacerda) e dos capitalistas estrangeiros. Todos só precisavam de um pretexto para realizar um golpe e tirar Getúlio do Catete. O pretexto chegou.
Na madrugada de 5 de agosto de 1954, dois pistoleiros tentaram matar Lacerda na porta de sua casa, na Rua Toneleiros, Copacabana. Lacerda teve ferimentos leves no pé, mas mataram o major da aeronáutica, Rubens Vaz, que protegia o jornalista.
Na noite do dia 23, Vargas comentou com seu irmão Bejo (Benjamim Vargas): “A UDN está preparando um banquete. Na hora que sentarem à mesa, eu puxo a toalha”. Na madrugada de 24 de agosto, por volta das 4 horas e 30 minutos, Getúlio suicidou-se com um tiro no coração.
Como no Brasil tudo vira samba, a carta-testamento de Vargas foi musicada e gravada por Moreira da Silva:

A carta
...Não me combatem, caluniam com certeza
Numa perseguição atroz
Não me dão direito de defesa
Precisam sufocar a minha voz...

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Cangaço


Movimento social do interior do Nordeste brasileiro, entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX. Caracteriza-se pela ação violenta de grupos armados de sertanejos – os cangaceiros – e pelos confrontos com o poder dos coronéis, da polícia, dos governos estadual e federal.
Os cangaceiros percorrem os sertões do Nordeste, assaltam viajantes nas estradas, invadem propriedades, pilham os vilarejos e aterrorizam os povoados. Em grande parte derivam de antigos bandos de jagunços – tropas particulares de grandes proprietários – que passaram a atuar por conta própria. Desenvolvem táticas de ataque e despistamento, criam lideranças e até uma nova imagem, marcada pelo colorido vivo das roupas, pelos adereços de couro e por atos de coragem e bravura nos constantes embates com as volantes – pelotões da polícia enviados para sua perseguição.
Cangaceiros – Consta que o primeiro cangaceiro teria sido o Cabeleira (José Gomes), líder sertanejo que atuou em Pernambuco no final do século XVIII. Mas é um século mais tarde que o cangaço ganha força e prestígio, principalmente com Antônio Silvino, Lampião e Corisco. Antônio Silvino (Manuel Batista de Morais) começa a atuar em Pernambuco em 1896, passando depois ao Rio Grande do Norte, onde é preso e condenado em 1918. Lampião (Virgulino Ferreira da Silva), filho de um pequeno fazendeiro de Vila Bela, atual Serra Talhada, em Pernambuco, envolve-se em disputas de terras da família e, no início dos anos 20, embrenha-se no sertão à frente de um grupo de cangaceiros. Do Ceará até a Bahia, o bando de Lampião enfrenta os coronéis e as polícias estaduais; às vezes, também é chamado para combater os adversários do governo. Valente, de hábitos refinados e, desde 1930, acompanhado de Maria Bonita, Lampião – ou Capitão Virgulino – torna-se uma figura conhecida no país e até no exterior.
Por parte das autoridades
Lampião simbolizava a brutalidade, o mal, uma doença que precisava ser cortada. Para uma parte da população do sertão ele encarnou valores como a bravura, o heroísmo e o senso da honra.
O cangaço teve o seu fim a partir da decisão do Presidente da República, o Ditador
Getúlio Vargas, de eliminar todos e qualquer foco de desordem sobre o territorio nacional. O regime denominado Estado Novo incluiu Lampião e seus cangaceiros na categoria de extremistas. A sentença passou a ser matar todos os cangaceiros que não se rendessem.
Implacavelmente caçado, Lampião é encurralado e morto em seu refúgio de Angicos, uma fazenda na região do Raso da Catarina, na divisa entre Sergipe e Bahia, em 1938. O compositor Rogério Franco ilustra em versos na sua música, (Raso da Catarina) o Fato Histórico:
MADRUGADA EM ANGICO, NA CAATINGA DO SERTÃO
CANGACEIRO DE MARIA E PADIM CIÇO ROMÃO
NA TOCAIA METRALHADO, MORREU O MEU CAPITÃO

NAS MARGENS DO SÃO FRANCISCO, NUM LAJEDO SEM SAÍDA
QUE O BANDO DE VIRGULINO, CAIU NUMA ARMADILHA
VINTE ANOS DE REINADO, MORREU SEM DIREITO A BRIGA

ÊITA PRÁ LÁ, DO RASO DA CATARINA
QUE A VOLANTE DA CHACINA
METRALHOU MEU CAPITÃO
Ê TRAIÇÃO, O SERTÃO TINHA MUDADO
LAMPIÃO FOI FUZILADO
PELOS MACACOS DE JOÃO
APETRECHOS CAPRICHOSOS E ARMADURA ENCOURAÇADA
UMA VIDA DE CINEMA, BATENDO EM RETIRADA
CÃO LENDÁRIO DE OLHO CEGO, NASCIDO EM SERRA TALHADA

GOSTAVA TANTO DE JAZZ, QUE INVENTOU O XAXADO
DO CHIADO DA CHINELA E RIFLE DE PONTA RISCADO
CANGACEIRO BONAPARTE, SERÁ PARA SEMPRE LEMBRADO.

Um de seus amigos mais íntimos, Corisco (Cristiano Gomes da Silva), o Diabo Louro, prossegue na luta contra as forças policiais da Bahia para vingar a morte do Rei do Cangaço, morrendo em tiroteio com uma volante em 1940. O cangaço chega ao fim.

A Revolução de 30


Não era apenas no samba que se processava uma revolução ao fim dos primeiros trinta anos do século XX.
Apesar de, aparentemente, a Aliança Liberal se conformar com o resultado, os getulistas acusaram o governo federal de fraudar as eleições e começaram uma conspiração discreta.
Contribuiu para alimentar o clima de golpe de Estado o fato de Washington Luís proceder a uma perseguição aos políticos mineiros e paraibanos que se opuseram à candidatura Júlio Prestes. A classe média urbana, à espera de reformas, passou a defender uma solução armada.
O estopim da revolução foi o assassinato do governador paraibano João Pessoa. Na intenção de punir seu ex-aliado, o “coroné” José Pereira, o governador bloqueou a fronteira entre a Paraíba e Pernambuco, proibindo que os moradores da região da cidade de Princesa (hoje Princesa Isabel, no sul do Estado), chefiada por Pereira, comercializassem com Recife, salvo com o pagamento de elevado imposto.
A questão se transformou em guerra civil e não contou com qualquer intervenção do governo federal. No dia 26 de julho de 1930, João Pessoa viajou até Recife. Enquanto tomava chá com políticos e amigos em uma confeitaria, o advogado João Dantas entrou, aproximou-se de sua mesa e disse: “Sou João Dantas, a quem tanto humilhastes e maltratastes”.
Disparou-lhe três tiros à queima roupa.
Para vingar-se do apoio que o advogado paraibano deu a José Pereira, os aliados de João Pessoa publicaram cartas que Dantas enviara para sua amante, Anaíde Beiriz. A professora primária caiu em desgraça e Dantas fugiu para o Recife.
Mais uma vez, Eduardo Souto, em parceria com Oswaldo Santiago, fez a história em verso e canção. O Hino a João Pessoa foi registrado em disco na voz de Francisco Alves:

João Pessoa, João Pessoa
Bravo filho do Sertão
Toda Pátria espera um dia
A tua ressurreição

João Pessoa, João Pessoa
O teu vulto varonil
Vive ainda, vive ainda
No coração do Brasil

João Pessoa era contra a luta armada para impedir Júlio Prestes de governar, mas, ironicamente, seu assassinato foi o pretexto – já que o governo federal nada fez para solucionar o conflito na Paraíba – para que os políticos ligados à Aliança Liberal (liderados por Getúlio Vargas) e os tenentistas derrubassem o Presidente. Em meio à comoção popular, começou um levante em 3 de outubro. No dia 31, Getúlio Vargas entrou triunfante no Rio de Janeiro. Chegava ao fim a “política do café-com-leite”.
Lamartine Babo compôs e Almirante gravou Barbado foi-se. “Dr. Barbado” era o apelido de Washington Luís:

De sul a norte todos viram a intrepidez
De um Brasil heróico e forte
A raiar no dia três
A Paraíba, terra santa, terra boa
Finalmente está vingada
Salve o grande João Pessoa

Dr. Barbado foi-se embora, deu o fora
Não volta mais, não volta mais...

Em 3 de novembro de 1930, Vargas tomou posse do governo “provisório”. Mesmo que a Revolução – ou contra-revolução, como ele gostava de chamar – não tenha sido de caráter militar, ficou claro que com ela os militares, que conspiravam desde a queda de Floriano Peixoto, reconquistaram o poder. Notadamente os tenentistas.
Logo que assumiu o cargo de Presidente, Getúlio anistiou os rebeldes de 22 e 24; criou os ministérios do Trabalho, Indústria e Comércio e da Saúde e Educação; modificou o sistema eleitoral; fechou o Congresso Nacional e as Assembléias Estaduais e, com exceção de Minas Gerais, nomeou interventores federais nos estados – a maioria do movimento tenentista.
Mais tarde, a música de maior sucesso do carnaval de 32 faria uma alusão à políticas dos interventores (Fui nomeado teu tenente interventor). Teu cabelo não nega, composta por Lamartine Babo, em adaptação à marcha Mulata, dos Irmãos Valença, que, depois de uma disputa judicial, passaram a assinar a canção em parceria com Lamartine. A gravação foi de Castro Barbosa:

O teu cabelo não nega, mulata
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega, mulata
Mulata, eu quero o teu amor

Tens o sabor
Bem do Brasil
Tens a alma cor de anil
Mulata, mulatinha, meu amor
Fui nomeado teu tenente interventor...

Durante o governo Getúlio, os novos grupos dominantes adotaram o chamado populismo como linha política. Ou seja, a elite passou a fazer concessões ao povo, mas apenas até um limite que ela mesmo estabelecia.
Atendendo a reivindicações, oficializou-se a Previdência Social e legalizaram-se os sindicatos. Em Contrapartida, a maioria das greves foi declarada ilegal.
Para desmotivar possíveis protestos, o novo governo concedeu várias vantagens trabalhistas, tais como jornada de trabalho de oito horas diárias, salário mínimo, férias pagas, proteção ao trabalho infantil e feminino, dentre outros.

Samba & Dinheiro


Uma característica dos primeiros anos da década de 30 foi a participação do carnaval como fator de incentivo para o lançamento de discos. Durante toda a década, e em boa parte dos anos 40, as gravadoras programavam o período de novembro a janeiro para abarrotar o mercado de sambas e marchas para o carnaval. As produções lançadas nos demais meses eram chamadas de “músicas do meio do ano”. Durante muitos anos, o consumidor foi contemplado também por gravações especiais para o período junino e para as festas de fim de ano.
Os primeiros anos da década de 30 ficariam marcados ainda pelo início de um processo de conscientização profissional dos compositores. Os dirigentes das gravadoras e das emissoras de rádio, assim como os proprietários das editoras musicais que começavam a se multiplicar, abriram os seus negócios sabendo que estes eram capazes de render lucros incalculáveis. Alguns cantores também percebiam que o ofício escolhido poderia proporcionar recursos suficientes para a sua sobrevivência. Mas os compositores ainda levariam algum tempo para se convencerem de que exerciam uma profissão que poderia ser remunerada.
Uma cena que foi narrada pelo compositor Cartola – Angenor de Oliveira (1908 – 1980) - , numa entrevista, revela que, no final dos anos 20, a mentalidade do compositor popular ainda andava muito distante da sociedade de consumo. Numa tarde de 1929, Cartola estava em seu barraco, no Morro da Mangueira, quando um primo o procurou para comunicar que, lá embaixo, o cantor Mário Reis o esperava para negociar a compra de um dos seus sambas.
“Comprar um samba meu? Pra quê?”, queria saber Cartola, para quem comprar um samba era como comprar o vento, a chuva, qualquer coisa, enfim, que jamais seria comercializada.
O primo convenceu-o de que o visitante estava disposto a comprar o samba e Cartola teria de fixar o preço. “Quanto vou pedir?”, perguntou o compositor. “Será que 50 mil-réis está de bom tamanho?” , especulou. O primo achou barato demais e sugeriu que pedisse 500 mil-réis, quantia que Cartola jamais vira em toda sua vida. Acabaram entrando num acordo, fixando o preço do samba em 300 mil-réis, quantia com a qual o cantor Mário Reis concordou imediatamente. O samba chamava-se Que infeliz sorte e foi gravado por Francisco Alves, sem o menor sucesso.
A arrecadação e a distribuição de diretos autorais ainda era algo nebuloso naquela época, embora uma lei de autoria de Getúlio Vargas, quando deputado representando o Rio Grande do Sul, assegurasse para os compositores o pagamento dos direitos autorais, todas as vezes em que as músicas fossem exploradas comercialmente. Para ter condições de receber algum dinheiro pelas suas obras, porém, o compositor era obrigado a inscrever-se na Sociedade Brasileira de Autores Teatrais – a SBAT - , que contava com um departamento especializado em arrecadar os direitos autorais das músicas. O direito autoral vindo do teatro era chamado de “grande direito”. O que vinha da execução de músicas não passava de “pequeno direito”. E era mesmo. A maior arrecadação de direitos musicais vinha do próprio teatro, onde a SBAT atuava com desembaraço. Como já contava com uma estrutura para defender os interesses dos autores teatrais, reservava uma pequena percentagem da arrecadação para os compositores que conseguiam colocar músicas nas peças. O rádio pagava quanto e quando queria. E a arrecadação em bares, cabarés e boates era nula. A fonte de renda mais segura eram as gravadoras, que reservavam uma reduzidíssima taxa da venda de cada disco para pagamento aos cantores e aos compositores.
A ingenuidade dos autores musicais estimulou um comércio clandestino, através do qual alguns conhecedores de toda aquela engrenagem especializaram-se em comprar a autoria das músicas dos compositores mais modestos, que, muitas vezes, abriam mão de obras que viriam a consagrar-se, em troca de um pagamento que mal dava para o almoço ou para o jantar. Na gíria do samba, os falsos autores eram conhecidos como “comprositores”. Não são poucas também as histórias de apropriação indébita da música alheia, já que os humildes compositores não sabiam que bastaria registrar suas obras na Escola Nacional de Música ou na Biblioteca Nacional para assegurar a sua autoria.

O RÁDIO

Além da fundação do Partido Comunista, vários outros acontecimentos merecem registro no ano de 1922, como, por exemplo, a Semana de Arte Moderna, em São Paulo, também fruto de idéias estrangeiras em estética, trazidas da Europa por jovens intelectuais, os modernistas. Em apenas três dias agitaram intensamente a cultura brasileira. A preocupação dos modernistas neste momento foi romper com o passado e absorver as tendências vanguardistas da Europa. Com o Manifesto Pau-Brasil (1924), o movimento modernista se dedicou a “descobrir o Brasil”, buscar a identidade nacional brasileira.
Aos 7 de setembro de 1922, realizou-se a Exposição Internacional para comemorar o centenário da Independência. O discurso de abertura do presidente Epitácio Pessoa inaugurou , em transmissão experimental, a radiodifusão no Brasil. Era o início do rádio, que em breve se tornaria o maior meio de comunicação do país até o advento da televisão na segunda metade do século.
A radiocomunicação – descoberta pelo italiano Guglielmo Marconi e aperfeiçoada por vários outros inventores -, possibilidade de transmissão através do espaço de ondas eletromagnéticas capazes de produzir sons, começou no Brasil como brincadeira, como nos ensina José Ramos Tinhorão:
“Do momento em que a notícia dessa fabulosa possibilidade de transmitir os sons pelo espaço espalhou-se pelo país, começaram a surgir dezenas de curiosos resolvidos a praticar a radiodifusão como mais uma diversão tecnológica. Esse espírito de brinquedo e curiosidade de amadores ia revelar-se, desde logo, na organização de tais experiências com caráter de clubes, os famosos radioclubes que acabariam dando nome a tantas emissoras de todo o Brasil.”
Oficialmente, o rádio começou durante a exposição do centenário da Independência. As companhias norte-americanas Westinghouse e Western Eletric montaram estações no Corcovado e na Praia Vermelha, respectivamente. Transmitiam, em caráter experimental, óperas, discursos políticos e palestras educativas.
Educação foi justamente a principal motivação da criação da primeira radiodifusora permanente no Brasil. Edgar Roquete-Pinto, médico, antropólogo e educador, deslumbrou-se com a invenção do rádio e logo a concebeu como instrumento educativo. Fundou a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, em 20 de abril de 1923. Foi o estopim para que no mesmo ano fossem fundadas a Rádio Clube do Paraná e a Rádio Educadora Paulista. A segunda emissora carioca, a Rádio Clube do Brasil, veio em 1924 e daí em diante todo o espaço aéreo brasileiro passou a ser ocupado.

SEU MÉ E DOUTOR BARBADO

O ano de 1922 marca também a atribulada sucessão de Epitácio Pessoa, na segunda eleição efetivamente competitiva da Primeira República – a primeira fora a Campanha Civilista, em 1910, na primeira candidatura de Rui Barbosa. A eleição ocorreu no mês de março. Paulistas e mineiros indicaram o mineiro Artur Bernardes. A oposição, formada por Rio Grande do Sul, Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro – estados intermediários - , indicou Nilo Peçanha. Era a Reação Republicana.
O poder dominante prevaleceu, como sempre ocorreu no período, e Artur Bernardes foi eleito. Isso não significa que o processo tenha sido tranqüilo. Eventos violentos marcaram a sucessão.
A imprensa havia publicado uma série de cartas, cuja autoria era atribuída a Bernardes. Nelas, os militares eram alvos de ofensas. O marechal Hermes da Fonseca era denominado, entre outras coisas, de “sargentão sem compostura”. Foi o chamado episódio das “cartas falsas”.
A partir da Primeira Guerra Mundial, um movimento de militares liderado por jovens oficiais de baixa patente, com a participação de suboficiais, sargentos e cadetes, já vinha protestando inicialmente contra o abandono do exército. Posteriormente, além da questão militar, o movimento ganhou cunho político, reivindicando reformas políticas e sociais. Trata-se do chamado Tenentismo.
A revolta contra as “cartas falsas” foi tão grande que Epitácio Pessoa acabou fechando o Clube Militar ao enquadrá-lo em uma lei destinada a fechar associações de anarquistas e prostíbulos. Entre os tenentistas já se falava em revolução.
A primeira rebelião tenentista aconteceu logo após a eleição de Artur Bernardes,. Foi a Revolta do Forte de Copacabana. Os líderes do movimento foram o capitão Euclides Hermes (filho de marechal Hermes) e o tenente Siqueira Campos. O capitão Euclides foi negociar com o Ministro da Guerra e acabou preso. Siqueira Campos decidiu que os rebeldes iriam sair da fortaleza e enfrentar as forças fiéis ao governo. Dos 301 militares rebeldes, a maioria debandou logo à saída e apenas 18 marcharam pela Avenida Atlântica – os “18 do Forte” – e contaram com a adesão de um civil, o engenheiro Otávio Correia, para enfrentar os 3 mil soldados do governo. Ao tiroteio sobreviveram apenas os tenentes Siqueira Campos e Eduardo Gomes.
A música também testemunhou a sucessão de Epitácio Pessoa. Em 1921, uma marcha carnavalesca atacava Artur Bernardes, que tinha o apelido de “Seu Mé”:

Ai, seu Mé
Ai, Seu Mé
Lá no Palácio das Águias
Olé
Não hás de pôr o pé

Os autores, Freire Jr. e Careca, chegaram a ser presos. Em 22, após a vitória de Bernardes, a letra da canção foi devidamente retificada e gravada em disco na voz de Francisco Alves:

Ai, Seu Mé
Ai, Seu Mé
Se não fosse a Santa Cruz
Olê-ré
Tu não tomavas pé.

SÃO PAULO DÁ CAFÉ, MINAS DÁ LEITE E A VILA ISABEL DÁ SAMBA

O século XX começou com o governo de Campos Sales (1898 – 1902), que promoveu uma política de valorização da moeda brasileira perante a libra esterlina, moeda de referência internacional – 1 libra valia 48 mil-réis. Assim, reduziram-se os preços dos produtos estrangeiros e muitas indústrias nacionais que não agüentaram a concorrência acabaram fechando ou diminuindo a produção. A crescente exportação do café, por outro lado, só fez valorizar. Era a hegemonia econômica das oligarquias agrícolas.
Nesse período, era evidente a ausência do sentimento de nacionalidade. Não havia partidos políticos de âmbito nacional. Cada estado possuía seus próprios partidos. Os mais poderosos estavam nos estados mais ricos: PRP (Partido Republicano Paulista) e PRM (Partido Republicano Mineiro), que detiveram o poder até a Revolução de 30. Foi a chamada “política do café-com-leite”.
Apesar de a concentração populacional estar no campo, cidades como São Paulo e Rio de Janeiro já começavam a mostrar características de metrópole.
A capital do Brasil era o Rio de Janeiro. Desde 1892, funcionava no Rio o estabelecimento comercial do imigrante europeu Frederico Figner; a Casa Edison – homenagem a Thomas Edison, o inventor do gramofone e do grafofone -, importadora dos aparelhos sonoros e dos cilindros de cera, com música estrangeira a princípio e sede da primeira gravadora nacional; a Odeon, com as gravações dos fonogramas de vozes pioneiras dos cantores Cadete (Antônio da Costa Moreira), Bahiano (Manuel Pedro dos Santos) e, um pouco mais tarde, Eduardo das Neves. Fred Figner deu início à profissionalização da música popular no Brasil.
Manuel Pedro dos Santos, o Bahiano, nascido em Santo Amaro da Purificação, em 1887, foi o primeiro cantor a se profissionalizar no Brasil. Foi ele o intérprete do que até o final do século XX se acreditava ser o primeiro samba gravado no país – Pelo telefone -, de autoria duvidosa, registrado por Donga e Almeida, em 1917, na gravadora Odeon. A própria Odeon já havia lançado de 1912 a 1914 Descascando o pessoal e Urubu malandro, entre outras músicas, qualificadas como samba em seu catálogo.

A BAHIA ESTAÇÃO PRIMEIRA DO BRASIL...
... QUE ALEGRIA NÃO TER SIDO EM VÃO QUE ELA EXPEDIU
AS CIATAS PRA TRAZEREM O SAMBA PRO RIO, POIS O MITO SURGIU DESSA MANEIRA...
(Onde o Rio é mais baiano – Caetano Veloso)

No Rio de Janeiro, à Rua Visconde de Itaúna, 117, situava-se a casa de Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, a mais famosa das “tias” baianas – herdeiras das tradições culturais africanas encarregadas de transmiti-
las às gerações futuras. O marido de Tia Ciata, o também negro e baiano João Batista da Silva, havia cursado medicina em Salvador e por conta da formação ocupava bons empregos e contava com o respeito da polícia. A casa da Tia Ciata exalava a cultura africana: dança, culinária, cultos religiosos (candomblé) e ritmo. Pode ser considerada um dos berços do samba.

O FUNDO DE QUINTAL

No início do século XX, o samba era apenas ritmo. Não havia letras. Alguns anos antes, a partir de 1880, surgira um gênero totalmente instrumental: o choro. Os primeiros grupos de chorões foram formados pelo flautista Calado (Joaquim da Silva Calado), músico negro de excelente formação. A maioria dos músicos que cercavam Calado morava na “Cidade Nova” (RJ) e tocava ritmos estrangeiros nos bailes e saraus elegantes. Em suas reuniões, a polca da Boêmia, o schottisch teuto-escocês ou a valsa da Alemanha ou da França ganhavam um sotaque totalmente brasileiro. Era o choro. Criatividade e improviso. Suas origens brancas o tornavam aceitável pela elite e, por conseguinte, pela polícia, que não se incomodava com o som das rodas de choro que se ouvia nas salas das residências do Rio de Janeiro.
Quem passasse à porta da casa da Tia Ciata também ouviria a música dos salões. O choro, porém, funcionava como disfarce para que, no fundo, se fizesse samba. Como declara Pixinguinha: “O choro tinha mais prestígio naquele tempo. O samba, você sabe, era mais cantado nos terreiros, pelas pessoas muito humildes. Se havia uma festa, o choro era tocado na sala de visitas e o samba, só no quintal, para empregados”.

Nosso Foco...

A música está na alma do Brasil, é uma das formas mais autênticas da expressão do povo e da própria nação e nos leva ao encontro de nós mesmos, descortinando nossa identidade, contribuindo para que venha a lume a nossa própria história, a história da nossa cidade, do nosso estado, do nosso país.
É espantoso constatar que, apesar da riqueza de informações que boa parte das músicas compostas ao longo de nossa história oferecem, elas foram deixadas de lado, descartadas enquanto documentos vivos da história brasileira.
A nossa coluna no Linha Azul faz parte de um projeto que visa resgatar episódios e fatos marcantes da nossa história, retirando do baú musical brasileiro uma canção temática esquecida, uma marchinha genuína do nosso carnaval, um jingle que retrate um momento político brasileiro.
Iniciaremos hoje a análise do contexto histórico de uma grande mulher que foi destaque musical do nosso país: Chiquinha Gonzaga

A História Através da Música
(Chiquinha Gonzaga)

Desde a segunda metade do século XIX, o piano passou a integrar o mobiliário das salas da classe média brasileira. Assim, a venda de músicas em papel impresso para piano foi uma das primeiras formas de divulgação musical, estendendo-se até a virada da década de 20 para a de 30 do século XX. A música popular tinha também no teatro um importante veículo de divulgação. Numa época em que a música estava intimamente ligada à atividade teatral, colocar uma canção numa peça de sucesso era meio caminho andado para o êxito.
Entre os compositores e instrumentistas que se beneficiaram do sucesso no teatro, um nome de grande destaque foi, sem dúvida, o de Chiquinha Gonzaga, uma extraordinária pioneira tanto no campo da música quanto na esfera do comportamento. Integrante de uma família de classe média, escandalizou a sociedade do século XIX ao separar-se de dois maridos e dedicar-se à música de maneira independente, num segmento predominantemente masculino. Graças ao seu talento, superou todas as resistências, pois era exímia pianista e compunha obras tão bonitas quanto inovadoras. Se a música brasileira urbana tem muitos pais, a mãe é uma só: Chiquinha Gonzaga. Foi ela que, em 1899, fez a primeira música composta especialmente para o carnaval, a marchinha Ô abre alas. Chiquinha já estava com 67 anos de idade quando, involuntariamente, provocou uma crise envolvendo o presidente da República e o Senado. No dia 26 de outubro de 1914, o presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca, ofereceu no palácio presidencial uma recepção aos chefes das missões diplomáticas estrangeiras, com a participação da “fina flor” da chamada alta sociedade brasileira. Teria sido uma reunião como outra qualquer se a mulher do presidente, a jovem Nair de Teffé, não tivesse seguido o conselho do compositor Catulo da Paixão Cearense e programado a execução, no violão, de uma das músicas mais famosas de Chiquinha Gonzaga, O corta-jaca, já bastante conhecida do público através do teatro. Para os conservadores, um duplo pecado: música popular numa recepção presidencial e tocada por violão! Logo um violão, um “instrumento de capadócios”, como se dizia na época, e que servia até de agravante para quem era detido pela polícia nas ruas. Se apresentasse nos dedos as marcas características dos violonistas, era imediatamente levado para a cadeia sob a acusação de vadiagem. Os jornais publicaram o escândalo nas primeiras páginas. Os estudantes, parecendo querer demonstrar que nem sempre estão na vanguarda, promoveram manifestações nas ruas, enfrentando, por isso, a repressão do próprio Exército. No Senado Federal, nada menos do que Rui Barbosa soltou o verbo com todos os seus preconceitos. Dirigindo-se ao presidente do Senado, bradou:
“Por que, sr. Presidente, quem é o culpado se os jornais, as caricaturas e os moços acadêmicos aludem ao corta-jaca? Uma das folhas de ontem estampou em fac simile o programa de recepção presidencial em que, diante do corpo diplomático, da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam dar ao país o exemplo das maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o corta-jaca à altura de uma instituição social. Mas o corta-jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, que vem a ser ele, sr. presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas, nas recepções presidenciais, o corta-jaca é executado com todas as honras da música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria.”